
Mazzo e Marquinho na Largada
Eu (Mazzo) e
o Marquinho
fizemos esta prova em setembro de 2007. Saímos de Curitiba-PR
no dia 05/09/2007 as 23:38 horas e chegamos em Luziania-GO, pouco
antes de Brasília-DF, no dia 06/09/2007 as 23:37horas.
Completamos o percurso de 1.628 kms (no GPS) exatamente no tempo
máximo.
Nossa previsão era fechar o Iron
Butt SaddleSore 1000 em aproximadamente 20 ou 21 horas. Como
a distância entre Curitiba-PR e Brasilia-DF é inferior
a distância necessária para a certificação
(aproximadamente 1.700 kms), montamos um roteiro
que passava por Ponta Grossa-PR e chegava no interior de São
Paulo, em Ourinhos-SP. Dali aproveitamos as estradas do estado
de São Paulo, que são muito boas, pedagiadas e as
motos não precisam pagar pedágios, assim conseguiríamos
adiantar um bom tempo para cumprir a meta. Foi o que realmente
aconteceu. De Ourinhos, seguimos para Sorocaba-SP, Campinas-SP
e Ribeirão Preto-SP. Todos estes trechos, com pistas duplicadas,
nos ajudou a adiantar bastante a viagem e garantir uma margem
de segurança para eventuais problemas que pudessem atrasar
a viagem no restante do trecho.
Um pouco antes de Uberaba-MG, a minha moto, a Ana Claudia, teve
o pneu traseiro furado. Tocamos até o primeiro posto onde
constatamos não ter socorro de borracharia, então
enchemos um pouco do pneu com aqueles produtos utilizados para
tapar os furos. Estes produtos funcionam bem em pneus sem câmara,
mas como a Drag Star 650 utiliza pneus com câmera, conseguimos
apenas um pouco de ar para chegar até o próximo
posto, aproximadamente 10 kms dali.
Mesmo antes de chegar ao posto, já constatávamos
que o pneu tinha esvaziado, mas fomos pilotando mais de vagar
até chegar ao posto. Este, como já prevíamos,
apesar de ter borracheiro, não sabia mexer em pneus de
motos, então a solução foi chamar a assistência
24 horas do seguro e levar a moto até Uberaba-MG para consertar
o pneu em alguma concessionária Yamaha.
Ao chegar na concessionária conversamos com o chefe da
oficina e esclarecemos que estávamos no meio de uma prova
de regularidade e não poderíamos perder muito tempo,
senão teríamos que abortar a missão. O chefe
da oficina, muito prestativo e atencioso, logo tirou a roda da
moto e já levou para o borracheiro consertar, mas infelizmente
foi constatado que houve alguns cortes na câmara e precisaria
ser trocada, o problema é que não tinha câmara
de ar deste modelo na concessionária e nem em outras lojas
de moto da cidade, então o jeito foi improvisar com alguma
câmara de carro. A que funcionou perfeitamente foi uma de
fusca.

Conserto do pneu da Ana Claudia em Uberaba-MG

Concessionária Yamaha em Uberaba-MG
Neste tempo perdido pensamos diversas vezes em abortar o Iron
Butt, devido ter se passado muito tempo e os trechos de rodovia
que tínhamos pela frente não eram de pista dupla,
com exceção até Uberlândia-MG, além
do horário, que já iria anoitecer. Conforme o tempo
se passava, maior era nossa ansiedade e tristeza por ver que não
daria para completar as 1000 milhas no tempo máximo previsto.
Mas, enquanto aguardávamos o conserto do pneu, o Aristides,
que foi nossa testemunha de saída e já fez diversos
Iron Butts pelo Brasil, com uma vasta experiência nestas
certificações, inclusive um ícone de referência
no Brasil pela Iron
Butt Association, ligou no celular para ver como e onde estávamos.
Explicamos a situação e que teríamos umas
5 horas para fazer pouco mais de 500 kms, o que daria uma média
horária muito alta. Neste momento o Aristides nos incentivou
a não desistir, falou de algumas experiências que
teve em outras certificações que fez e insistiu
que continuássemos, mesmo não conseguindo, deveríamos
tentar.

Marquinho meio desiludido
Resolvemos então arriscar e ir controlando a quilometragem
pelo tempo para ver se conseguiríamos. Saímos da
concessionária por volta das 18:30 horas pilotando para
Uberlândia-MG. Como este trecho é duplicado e o movimento
não estava tão intenso, conseguimos fazer os 100
primeiros kms em pouco menos de uma hora. Bastou uma olhada entre
eu e o Marquinho onde ambos tiveram o mesmo pensamento, se fizemos
os primeiros 100 kms em menos de 1 hora, vamos ver se fazemos
os próximos 400 kms em 4 horas. Enrola o cabo e vamos embora.
Mal sabíamos que tipo de estrada teríamos a frente,
pois a partir de Uberlândia-MG era pista simples até
Brasília-DF, e ainda com o inconveniente de pegar muito
tráfego contra, pois era véspera de feriado e tinha
muita gente saindo da cidade para o feriadão. Não
quisemos nem saber, o Marquinho ligou a luz alta, junto com os
faróis de milha e saiam da frente que estamos passando.
Nessas alturas até o sono já tinha passado, a adrenalina
era muita alta. Havíamos levantado no dia 5 cedo para trabalhar
e as 23:38 horas saímos para o Iron Butt. Como neste momento
já passava das 18 horas do dia 6, tínhamos mais
de 30 horas sem dormir e mais de 18 horas em cima da moto.
Após Uberlândia-MG, pegamos pista simples, serra
e muito tráfego contra, com isso nossa média horária
caiu bastante e ainda tínhamos alguns kms para fechar o
percurso. Neste momento passava de tudo pelas nossas cabeças,
angústia, tristeza, alegria, ansiedade, etc. Dentro do
capacete acontecem muitas coisas, você pode dar gargalhadas,
chorar, se emocionar, pensar ou até mesmo BERRAR palavrões
que ninguém vai te ouvir e nem reclamar. Ali é você
com você mesmo e mais ninguém. Quando dois ou mais
motociclistas costumam viajar juntos e tem os mesmos objetivos,
pilotando com uma verdadeira parceria, não precisam nem
palavras para trocar idéias, bastam simples olhares ou
pequenos gestos que o outro já entende o recado.
Conforme andávamos mais alguns kms, reavaliávamos
o tempo que ainda tínhamos e a quilometragem faltante.
Mas não tinha como parar, era um incentivando o outro,
bastava uma reduzidinha e uma olhada entre viseiras e pronto...,
vamos, vamos, vamos, ..... Só dava o Marquinho na frente
abrindo caminho com seus faróis de assustar qualquer ser
vivo que aparecesse pela frente. Eu vinha logo atrás e
as vezes até dava risada com algumas situações.
O Marquinho chegava na traseira dos veículos e dava aquela
saidinha pra esquerda para avaliar a ultrapassagem, mas nem era
muito necessário, pois bastava aqueles faróis todos
baterem no retrovisor do veículo que logo o motorista se
afastava para a direita dando passagem. Quando o Marquinho passava,
com aqueles dois escapes diretos na janela veículo, o motorista
abria mais ainda o caminho, PPPPRRRRRÓÓÓÓÓÓÓÓMMMMMM.....
Aí já aparecia o Mazzo, ultrapassando na seqüência
e utilizando o vácuo do Marquinho, VVVVRRRRRUUUUUMMMMMM.....
Ficava imaginando o quê poderia passar na cabeça
dos motoristas, pois eles só viam um baita farol no retrovisor
e VRRRRUUUMMMM..... VRRRRUUUUMMMMM..... : “São malucos
esses dois motoqueiros aí !!!” Mau sabiam eles o
quanto estavam nos ajudando abrindo passagem.
Em Campo Alegre de Goiás-GO fizemos uma parada para abastecimento
num posto e recebemos algumas informações não
muito animadoras de um motorista que também estava indo
para Brasília-DF. Ele disse que rotineiramente fazia aquela
viagem e o trecho depois de Cristalina-GO, onde pegaríamos
a BR-040, estava muito ruim e era para tomarmos cuidado com os
buracos na pista. Isso nos desanimou um pouco, pois seria o trecho
final onde precisaríamos acelerar muito se quiséssemos
cumprir o roteiro no tempo programado. Esta parada durou menos
de 8 minutos, entre abastecer, preencher as planilhas, acertar,
pegar as notas e motocar novamente. Não tínhamos
tempo a perder, qualquer minuto era preciso.
Passamos Cristalina-GO e para nossa alegria aquele motorista
do posto estava desatualizado, já haviam recapado o asfalto
e estava lisinho. Sorte nossa. Aceleramos o que dava.
A Iron Butt
Association aconselha que se faça uma margem de 10%
a mais quando o odômetro marca em kms e não em Milhas,
mas como estávamos com tudo sendo registrado no tracklog
do GPS, que dá uma avaliação real, confiamos
nestes registros e, com 1.610 km, paramos no posto para a abastecida
final e registro da chegada. Mas logo que entramos e mesmo antes
de parar, comentei com o Marquinho sobre o trecho que a Ana Claudia
teve que fazer em cima do caminhão de reboque por causa
do pneu furado, foram aproximadamente 9 km. Então combinamos
de seguir até o próximo posto para aumentar a quilometragem
e aí sim considerar o Iron Butt completado.
Com 1.628 Km registrados no GPS e exatamente as 23:37 horas do
dia 06/09/2007 chegamos num posto em Luziania-GO, abastecemos
rapidamente e pegamos a nota fiscal com data e hora para as devidas
comprovações. Era pura alegria. Ligamos para casa
para avisar as esposas que já estávamos quase em
Brasília-DF e completamos nosso SaddleSore 1000 em cima
do tempo máximo. Ligamos também para o Aristides
para agradecer todo apoio e incentivo que ele nos deu para não
desistirmos. Creio que, se não fossem as palavras dele,
teríamos desistido lá em Uberaba-MG quando gastamos
muito tempo com o conserto do Pneu.
Hoje, mesmo para nós, é difícil acreditar
que conseguimos esta proeza, pois sabemos dos riscos que corremos
pilotando rapidamente a noite para atingir os nossos objetivos,
mas mesmo naqueles momentos, pilotamos com bastante atenção
e sem cometer imprudências. Nos pontos onde não era
possível ultrapassar e os veículos não davam
passagem, mantínhamos as devidas esperas por uma brecha.
Afinal, o Iron Butt poderia ser feito em qualquer outro momento.
Tínhamos consciência que nossas vidas são
muito mais importante que o certificado.
Ainda no posto de Luziania-GO tivemos o prazer de conhecer dois
motociclistas de São Paulo que também estavam chegando
em Brasília-DF naquele momento, pois naquela data iniciava
na capital federal o Brasília Music Festival Moto. Um evento
para motociclistas com shows de várias bandas de Rock,
inclusive o Steppenwolf
com a lendária Born
To Be Wild estaria presente. Também se encontrava na
cidade o grupo OCC,
que trazia para Brasília-DF uma moto feita especialmente
para o evento e iria se apresentar no desfile de 7 de setembro.
Saímos de Luziania-GO, agora acompanhados pelo novo amigo
Guirau que acabávamos de conhecer e fomos procurar algum
bar em Brasília-DF para comemorarmos a façanha e
meu aniversário, que acontecia justamente no dia 6 de setembro.
Devidamente registrados na Iron
Butt Association e com uma baita façanha registrada
para nosso primeiro Saddlesore 1000:
Mazzo - Registro número: 33.135
(Após digitar a palavra que aparece na tela, procure por
Mazzorana)
Marquinho - Registro número: 33.136
(Após digitar a palavra que aparece na tela, procure por
Menslin)